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Entre a sobrevivência e a liberalização: o novo plano de negócios da Petrobras

Ineep      terça-feira, 8 de janeiro de 2019

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Entre a sobrevivência e a liberalização: o novo plano de negócios da Petrobras

Foto: Mario Tama / Getty Images

 

No último dia 05 de dezembro, a Petrobras divulgou o seu Plano de Negócio e Gestão (PNG) para o período 2019-2023. O documento publicado pela empresa ocorre num mercado nacional de petróleo em transformação que, nos próximos anos, deve ser marcado pelo forte aumento da concorrência interna e maior exposição à economia internacional.


Atualmente, a Petrobras detém cerca de 72% da produção de petróleo nacional, quase 100% do refino nacional e mais de 20% da distribuição. No entanto, nos próximos anos, cada um desses segmentos passará por mudanças relevantes com uma crescente participação de novos atores no setor.


Em primeiro lugar, no upstream, os resultados dos leilões do pré-sal, realizados até o momento, asseguraram à Petrobras um volume menor de reservas de petróleo, aproximadamente 45%. Em segundo lugar, no downstream, os novos operadores já têm sinalizado que ingressarão de forma integrada no mercado nacional de petróleo, isto é, sua atuação ocorrerá também no refino e na distribuição. A chinesa CNPC, por exemplo, através da sua subsidiária PetroChina recentemente adquiriu 30% da TT Work, empresa brasileira dona da distribuidora Petronac, e já demostrou interesse em investir em refinaria no Maranhão.


Outras transformações neste mesmo sentido devem ocorrer, tornando o ambiente competitivo mais acirrado no curto e médio prazo. Esse cenário exige um reposicionamento da petrolífera brasileira, caso ela opte por preservar sua posição no mercado brasileiro.


O PNG lançado semana passada aponta algumas diretrizes importantes que indicam tal reposicionamento.


Primeiro, a Petrobras retomou a expansão dos investimentos em upstream a fim de acelerar suas atividades de exploração na camada do pré-sal. os Após a forte redução dos últimos anos (cerca de US$ 20 bilhões entre os três últimos PNGs), os investimentos projetados para os cinco anos seguintes devem crescer quase 15%, saindo de US$ 60,3 bilhões para US$ 68,8 bilhões. No entanto, tais investimentos não se limitam à camada do pré-sal, uma vez que os recursos destinados na área do pós-sal apresentaram maior crescimento relativo (cerca de 20%), em função do aumento de US$ 25,3 bilhões para US$ 30,3 bilhões, cerca de 70% apenas na Bacia de Campos.


A recente venda das regiões mais maduras e menor produção, como Pargo, Carapeba e Vermelho, indica que a Petrobras deve concentrar esses investimentos exploratórios nos campos mais novos e com maior capacidade de produção.


Um outro dado que reforça essa percepção é a parceria estratégia realizada com a norueguesa Equinor, uma das empresas lideres nos processos de recuperação secundária em áreas offshore. Essa parceria também pode apoiar a entrada da Petrobras no segmento de renováveis, principalmente em energia eólica offshore, no qual a petrolífera norueguesa também tem uma atuação importante.


A retomada de atividades típicas de empresa de energia, como os novos investimentos em petroquímica e em renováveis, como a própria energia eólica offshore, ainda que de forma tímida (representa somente 0,8% dos investimentos globais do PNG enquanto em outras operadoras chegam a representar cerca de 3%), é outra diretriz estratégica que se destaca no novo PNG da Petrobras.


De forma geral, o aumento das projeções de investimentos da Petrobras em cerca de 13% indica que a Petrobras julga necessária a aceleração de suas atividades, pelo menos, no upstream. Isso porque, no dowstream, a estratégia apontada é oposta a essa observada na área de exploração e produção.


Em primeiro lugar, a Petrobras sinaliza uma redução da sua participação no refino (de 100% para 60% do mercado nacional) e manutenção dos investimentos no patamar atual (entre US$ 12 e US$ 13 bilhões nos últimos três PNG). E, em segundo lugar, não há previsão de novos investimentos em capacidade de refino, com exceção da conclusão do segundo trem da RNEST.


Essas diretrizes não se aproveitam das oportunidades internas que devem surgir nos próximos anos. Isso porque as estimativas de crescimento da produção de petróleo (cerca de 5% ao ano) devem fazer a produção se aproximar dos 3,2 bilhões de barris/dia em 2023, bem como o consumo de combustíveis, pelo menos no setor de transporte, deve aumentar cerca de 2% ao ano no próximo triênio, de acordo com a EPE.


Com efeito, uma parte importante da produção de petróleo gerada será exportada na sua forma bruta e/ou vendida para outras empresas que participarão do mercado de refino. Essa estratégia tende a diminuir a flexibilidade de gestão dos ativos da Petrobras, isto é, parte da rentabilidade do upstream deve ficar atrelada aos movimentos do preço do petróleo cru e impossibilitar sua capacidade de agregar valor à sua produção.


O mesmo questionamento pode ser feito à saída no segmento dos fertilizantes. A produção crescente de gás natural necessitará de novas formas de utilização, sendo a produção de fertilizantes nitrogenados um segmento central, dada a crescente demanda brasileira oriunda do setor agrícola e a sua capacidade de agregar valor ao gás natural.


Esse reposicionamento sinaliza claramente que a Petrobras necessita se manter como protagonista no segmento de E&P para sobreviver no novo mercado de petróleo brasileiro e também um olhar com a futura transição energética. No entanto, a menor atuação do refino, pode aumentar sua exposição no mercado internacional e ceder espaços estratégicos para seus futuros concorrentes.

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