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Os riscos de ser subalterno na geopolítica do petróleo

Ineep      quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

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Foto: Exame.

 

As perspectivas são de forte mudança na estrutura patrimonial da cadeia produtiva do petróleo nos próximos anos, com uma crescente internacionalização dos ativos hoje pertencentes a empresas nacionais, principalmente à Petrobras. A comprovada produtividade do pré-sal, o gigantesco mercado de consumo de derivados brasileiro, o potencial das energias renováveis são alguns dos elementos que impulsionaram a entrada de vários países no mercado de energia do Brasil, principalmente de petróleo e gás. O Ineep traz um panorama desses movimentos apontando para estratégia de dois países: França e EUA.

 

A França tem adotado uma postura bastante agressiva no setor de energia do Brasil. A empresa Tereos adquiriu toda a participação da Petrobras na empresa de biocombustíveis Guarani (cerca de 46%) numa transação de US$ 202 milhões. A petrolífera Total já adquiriu participações no pré-sal dos campos de Libra (20%) e, mais recentemente, de Iara (22,5%), bem como venceu o leilão em 2013 para explorar gás na Bacia do Rio Amazonas. Na segunda e terceira rodadas de licitação do pré-sal, a empresa também adquiriu, em consórcio com a Shell, a participação de 20% do campo de Sul de Gato do Mato. Segundo a empresa, o Brasil foi estabelecido como um dos principais focos para a atuação da companhia nos próximos anos, seguindo seu projeto de se tornar a maior empresa de energia limpa em 20 anos. Os esforços da Total, no entanto, seguiram uma estratégia mais ampla da França de reorganização e inserção global no segmento de energia.

 

Segundo uma matéria assinada por Diana Viola no Oil&Gas Financial Journal, o mercado internacional assumiu uma condição estratégica para o desenvolvimento do setor energético francês por três razões: i) garantir o suprimento de óleo e gás num país em que o volume de reservas é relativamente baixo para atender sua demanda; ii) aproveitar novas oportunidades globais de energia e; iii) permitir a expansão da cadeia de fornecedores (inclusive de menor porte) em termos globais. Sobre este último aspecto, vale citar um trecho da pesquisa: “(...) Prior to earning a global reputation, French companies must build networks and overcome fierce international and local competition without boasting longstanding credentials. Several SMEs have even admitted that risk wasn't enshrined in their culture and that they sometimes dithered too long before finally entering a market. “We have already established subsidiaries across the globe but our main objective in years to come is to have foreign companies use our French concepts and technologies," explains Guy Bardot, founder and CEO of Bardot Group”.

 

As empresas americanas também ingressaram no pré-sal brasileiro a partir da 4a rodada de licitações. A ExxonMobil participou com a Petrobras, a Equinor e a Petrogal da compra do direito de exploração do campo de Uirapuru, detendo 208% dessa área. A Chevron, por sua vez, abocanhou 30% do campo de Três Marias, ao lado da Petrobras e da Shell. Além disos, a empresa americana atualmente é detentora do Campo de Frade no pós-sal da Bacia de Campos. Outras companhias, como Epic e Amerada Hess, participaram ativamente em outros leilões ocorridos ao longo dos anos 2000. Essa presença nos leilões anteriores somada à ofensiva dessas corporações para alteração da lei do pré-sal indicaram o forte interesse do mercado americano no setor de óleo e gás brasileiro. Recente matéria de O Globo afirmou que, após a entrada de Michel Temer, três corporações (Exxon Mobil, Chevron e ConocoPhillips) procuraram o governo para sinalizar seu interesse em atuar no pré-sal. Essa postura dessas companhias simplesmente operacionalizou a estratégia do governo americano de ampliar sua inserção no mercado de energia brasileiro.

 

Um trabalho recente elaborado por Ildo Sauer e Larissa Rodrigues apontam como o Brasil ganharam centralidade na estratégia americana de energia. Um documento do governo dos Estados Unidos de 2011, denominado Blue print for a secure energy future mostrou que o mercado brasileiro estava no centro de três das sete iniciativas de longo prazo consideradas essenciais para desenvolvimento do setor de energia americano, a saber: “i) ampliar o desenvolvimento - que já está em curso há mais de 30 anos - do chamado "shale oil" e "shale gas" americano, que teve oportunidade de expansão, acompanhando a escalada dos preços do petróleo a partir de 2005; ii) exportar essa iniciativa para o mundo inteiro, especialmente para a China, que tem os maiores recursos, para a América Latina (forte atenção para o Brasil) e Europa; iii) incentivar a produção de biocombustíveis no mundo inteiro, em parceria com o Brasil; iv) ampliar a produção de petróleo nos Estados Unidos por meio da plataforma continental americana; v) ampliar as negociações com o México para que a parte mexicana do Golfo do México seja aberta, pois na parte americana há muita produção; vi) cooperação dos Estados Unidos com o Brasil, negociada entre Obama e Rousseff, para promover o desenvolvimento e acelerar a produção dos recursos do pré-sal na plataforma continental brasileira como "interesse comum entre os dois países"; e, vii) trabalhar pela redução do consumo para o uso mais eficientes, como carros e equipamentos”.

 

Como se observa, os dois países têm claramente estratégias bem definidas para o desenvolvimento do seu setor de energia. Tais estratégias tem combinado interesses de política externa e objetivos de desenvolvimento econômico. A atuação das empresas de cada um desses países, portanto, visam operacionalizar essas estratégias determinadas por seus respectivos Estados Nacionais. E esse não é o caso apenas de Estados Unidos e França. China, Reino Unido e outros países que tem ingressado no setor de petróleo e gás do Brasil também dispõem de estratégias específicas articulada aos interesses nacionais. Se assumir um papel subalterno, o Brasil se coloca com um ator reativo na disputa geopolítica do petróleo e dependente da ação das empresas estrangeiras, coloca em risco a soberania energética no longo prazo.

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