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Desinvestimento em 2019 custou R$ 13,8 bilhões à Petrobras (e ao Brasil)

Ineep      sábado, 14 de março de 2020

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Foto: O Petróleo.

 

O desempenho da economia brasileira no ano passado frustrou as expectativas dos analistas econômicos. Segundo o IBGE, em 2019 o PIB brasileiro – conjunto de todos os bens e serviços produzidos no país – foi de R$ 7,3 trilhões, um crescimento de 1,1% em relação a 2018. Este é o pior desempenho dos últimos três anos. A fraca performance do principal indicador da economia nacional pode ser explicada pela contração dos gastos públicos, resultado deliberado da política de ajustes fiscais do governo federal.

 

A empresa mais afetada por essas políticas foi a Petrobras. A estratégia de desinvestimento da estatal impactou negativamente o PIB e o emprego brasileiro em 2019.  Para calcular os impactos econômicos dos desinvestimentos da Petrobras no PIB, o Ineep utilizou o método da Matriz de Absorção do Investimento (MAI), desenvolvido pelo Grupo de Indústria e Competitividade do IE/UFRJ.

 

De acordo com os dados do estudo, cada 1 bilhão de reais investidos em exploração e produção (E&P) resulta na geração de 1,28 bilhão no PIB e gera 26.319 empregos em território nacional. No setor de refino, cada 1 bilhão de reais investidos implica um incremento de 1,27 bilhão no PIB e a geração de 32.348 empregos. Convém lembrar que esses resultados não incluem o efeito renda sobre o consumo, levando em conta apenas as conexões produtivas na cadeia de fornecedores dos investimentos.

 

Em 2019, de acordo com o relatório de administração da Petrobras, a estatal investiu R$ 33,6 bilhões no setor de E&P e R$ 5,8 bilhões no setor de refino. A soma dos investimentos nos dois setores (E&P e refino) gerou R$ 50 bilhões para o PIB (6,8% do PIB total nacional) e 226 mil empregos. Esses números, contudo, estão muito abaixo dos investimentos de épocas pretéritas da Petrobras [1].

 

Entre 2018 e 2019, os investimentos caíram 9,4 bilhões na produção e 1,4 bilhões no refino. O efeito disso para o PIB, segundo o método MAI, foi de uma perda da ordem de R$ 13,8 bilhões. Sem falar na perda de quase 300 mil empregos que deixaram de ser gerados, 247 mil em E&P e 45 mil no refino. Isso comparando com um ano de baixo investimento, 2018. Caso a Petrobras tivesse mantido o mesmo nível de investimento de 2018, o PIB poderia contar com um acréscimo de R$ 12 bilhões advindos de E&P e mais R$ 1,8 bilhão do refino.

 

Sem sinais de mudanças na atual gestão da Petrobras, a tendência é de que os investimentos sigam no mesmo patamar ou até diminuam nos próximos anos. Segundo aponta o Plano de Negócios e Gestão (PNG) 2020-2024, a Petrobras planeja investir nos próximos quatro anos US$ 75 bilhões, sendo 64,5% em E&P, concentrando suas atividades nesse setor. A estatal pretende privatizar oito refinarias e auferir de US$ 20 a US$ 30 bilhões em venda de ativos, dando sequência a sua política de desinvestimentos.

 

Em suma, a política da atual gestão da Petrobras segue as convicções do governo federal, que credencia ao investimento privado o fator primordial para o crescimento do PIB nacional.

 

Em face dos dados fracos, o governo publicou uma nota explicando que houve uma “melhora substancial” na composição do PIB. Na visão do Ministério da Economia ocorreu um “aumento consistente do crescimento do PIB privado e do investimento privado, de forma que a economia passou a mostrar dinamismo independente do setor público”. Além de absurda, já que não existe o conceito de “PIB privado” (e os investimentos públicos e privados não são concorrentes entre si), a declaração ilustra a visão ortodoxa neoliberal da administração Bolsonaro. Continuando e aprofundando uma política econômica iniciada no governo Michel Temer, o governo atual defende o crescimento nacional a partir do investimento privado e sem participação do Estado. Nesse sentido, se intensificam as políticas de desinvestimentos do setor público em prol do incentivo ao setor privado. Como se viu nos dados do PIB, elas não estão funcionando a contento.

 

Com a redução dos gastos do governo, o PIB de 1,1% reflete que o celebrado aumento no investimento privado (de apenas 2,2%) não teve o efeito desejado. Por outro lado, o crescimento poderia ser ainda maior se os investimentos públicos não estivessem sendo negligenciados. Os resultados mostram os impactos negativos da redução dos investimentos da Petrobras tanto sobre a renda e o emprego da economia brasileira quanto sobre a cadeia de fornecedores nacionais dos setores que fabricam equipamentos para o setor de petróleo e gás.

 

 

[1] Em 2013, a Petrobras investiu R$ 104 bilhões; em 2014 R$ 87 bilhões; em R$ 2015 76 bilhões; em 2016 R$ 55 bilhões e em 2017 R$ 48 bilhões.

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Nota editorial

Os textos publicados neste blog são de responsabilidade dos seus autores e não refletem necessariamente a linha programática e as opiniões do Ineep. A função do blog é divulgar os principais fatos e notícias do setor petróleo e, quando oportuno, analisar assuntos relevantes. São essas análises, elaboradas pelo Ineep, que apresentam a opinião do Instituto sobre os mais diferentes assuntos debatidos na conjuntura setorial.