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Entendendo o petróleo a preços negativos nos EUA

Ineep      sexta-feira, 1 de maio de 2020

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Foto: Getty Images.

 

No dia 20 de abril, o setor petrolífero dos EUA entrou em colapso quando o West Texas Intermediate (WTI), referência para preços do petróleo nos EUA, caiu para níveis abaixo de zero pela primeira vez na história, fechando o dia em -US $ 37,63 por barril. Poucos poderiam imaginar que o petróleo, uma mercadoria fundamental na geopolítica norte-americana, poderia ser cotada em um patamar negativo. Tal fato inédito se insere no recente contexto de desordem mundial do setor petroleiro.

 

O mercado petrolífero norte-americano experimenta um notório desequilíbrio de oferta e de demanda. Enquanto a demanda por petróleo vem sofrendo forte queda durante a pandemia da COVID-19, a oferta de petróleo, não acompanhou a redução da demanda, principalmente pela lenta (e possivelmente insuficiente) reação dos EUA na aplicação de medidas de restrição de produção.

 

De 13 de março até 10 de abril, o consumo de petróleo e derivados no país caiu de 21,5 milhões de bdp/dia para 13,8 milhões de bdp/dia, enquanto a produção se manteve relativamente estável no mesmo período.

 

Como resultado, há um volume recorde de carga de petróleo bruto estocado nos EUA, principalmente no centro de armazenamento de Cushing, no estado de Oklahoma. De acordo com a Rystad Energy, os tanques e dutos de Cushing que possuem capacidade de estocagem para 80 milhões de barris, teriam apenas 21 milhões de barris para serem preenchidos. Esse pequeno excedente já foi alugado para produtores e comerciantes. Isso significa que não existe espaço para o armazenamento de última hora.

 

Diante desse cenário, no dia 20 de abril, os contratos futuros de barril de petróleo em WTI – nos quais os investidores adquirem o direito num determinado período futuro pelo petróleo para vendê-lo no mercado – para o mês de maio entraram em profundo colapso. Tais contratos precificam exatamente o petróleo produzido nos EUA, majoritariamente proveniente de cinco estados (Texas, Dakota do Norte, Novo México, Oklahoma e Alaska).

 

Como o vencimento do prazo desses contratos seria no dia seguinte, 21 de abril, os proprietários desses contratos se dispuseram a pagar US$ 37,63 para os clientes que tivessem condições de retirar essa mercadoria, aceitando, assim, preços negativos para compensar suas obrigações contratuais.

 

Para o mês de junho, o preço do WTI futuro está no patamar de US$ 14. Apesar da melhora em relação ao mês de maio, esse valor será muito abaixo do necessário para as petroleiras norte-americanas que operam nos campos de xisto, com custos de produção superiores a US$ 35 por barril. De acordo com Artem Abramov, chefe de pesquisa de xisto da Rystad Energy, “o barril a US$ 30 é muito ruim, mas, quando chega em US$ 20 ou US$ 10, é um pesadelo completo”.

 

Em suma, há um grande descompasso no mercado petroleiro dos EUA, marcado pela queda da demanda e pela tardia reação do governo Trump. Como resultado, os EUA estão enfrentando problemas de armazenamento de petróleo. No dia 20 de abril, os preços WTI entraram em colapso, quando o mercado se deu conta de que não havia condições de estocagem do petróleo contratado para o mês seguinte. O cenário para os próximos meses nos EUA ainda é incerto. Uma minoria de investidores norte-americanos têm apostado em uma melhora a curto prazo. A maior parte dos analistas, entretanto, considera que a atual crise ainda será um fator de desequilíbrio do mercado por um bom tempo, principalmente pelo elevado custo de extração do petróleo da rocha de xisto.

 

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Nota editorial

Os textos publicados neste blog são de responsabilidade dos seus autores e não refletem necessariamente a linha programática e as opiniões do Ineep. A função do blog é divulgar os principais fatos e notícias do setor petróleo e, quando oportuno, analisar assuntos relevantes. São essas análises, elaboradas pelo Ineep, que apresentam a opinião do Instituto sobre os mais diferentes assuntos debatidos na conjuntura setorial.