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Guerra de preços do petróleo pode inviabilizar maior parte da produção de xisto nos EUA

Ineep      sexta-feira, 20 de março de 2020

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Foto: Bloomberg.

 

Em 9 de março, os preços do petróleo sofreram sua maior queda em um único dia, desde a Guerra do Golfo de 1991. Nesse dia, o Brent e o WTI, os dois principais indicadores das cotações mundiais do petróleo, caíram mais de 24%, fechando em US$ 34,3 e US$ 31,13, respectivamente. A violenta queda dos preços do petróleo gerou forte impacto negativo nos mercados financeiros e nas perspectivas de crescimento global.

 

O baque exorbitante no preço do petróleo foi resultado da crise entre a OPEP (representada pela Árabia Saudita) e a Rússia. Anteriormente ambos atores estavam unidos no arranjo conhecido como OPEP+, que conteve a oferta global de petróleo nos últimos três anos. A crise dessa aliança teria ocorrido por iniciativa da Rússia, que se negou a reduzir sua produção (uma medida comumente usada para conter queda de preços). Mas sugere-se que a ação russa visou também atingir a produção de xisto dos EUA, como retaliação pelas sanções do governo Trump à petroleira russa Rosneft, que teria transportado (ou pode estar ainda transportando) petróleo venezuelano.

 

Com o fim do acordo, a Arábia Saudita resolveu intensificar sua disputa por market share. Ao ofertar petróleo com descontos nunca antes vistos, ela deslocou da concorrência a própria Rússia e os EUA. E, ao que tudo indica, em abril, os sauditas planejam aumentar sua produção de petróleo para patamares superiores aos 10 milhões de barris por dia (bpd), destinados principalmente para atender a China e a Índia.

 

Para piorar a situação, a pandemia do Covid-19 entra nesse cenário como mais um elemento causador de queda da demanda global de petróleo. Junto com o aumento da produção gerado pelo rompimento da OPEC +, o surto gera resultados extremamente negativos para os países produtores e para as petroleiras internacionais, em especial as norte-americanas. Estas, devido ao alto custo de exploração do xisto, precisam de um preço alto para se manterem produtivas. De acordo com os dados fornecidos pela Rystad Energy, para a maior parte dessas empresas do xisto americano, os custos de produção do barril de petróleo (bdp) já estão superiores ao seu preço de venda.  Sem perspectivas de melhora a curto prazo, os preços do Brent e WTI vêm caindo diariamente, podendo beirar a faixa dos US$ 20 nas próximas semanas.

 

Das centenas empresas de xisto dos EUA, apenas 16 operam em campos onde os custos médios de produção estão abaixo de US$ 35 por barril. A ExxonMobil, por exemplo, precisa de um preço WTI de US$ 26,90 por barril para poder cobrir os custos e despesas de seus campos. No atual patamar de US$ 22 por barril, a produção de xisto provoca um resultado financeiro negativo. Nesse sentido, o CEO da ExxonMobil, Darren Woods, comunicou que vai postergar o desenvolvimento dos seus campos na Bacia do Permiano e planejar medidas para reduzir significativamente as despesas de capital e operações no curto prazo. Outras petroleiras, como a Chevron, também informaram medidas de corte gastos.

 

A queda repentina no preço do petróleo fez com que os patrimônios da Chevron e da ExxonMobil fossem reduzidos, respectivamente, em 38% e 30,8%, nas duas últimas semanas. O índice S&P Oil & Gas ETF (XOP), que fornece resultados do desempenho das empresas no setor exploração e produção, já caiu 67,2% em 2020.

 

Em um esforço para apoiar o setor de energia danificado, o presidente Donald Trump ordenou às autoridades de energia dos EUA que comprassem "grandes quantidades" de petróleo para preencher a reserva de emergência do país. A reposição da reserva estratégica permite que o governo dos EUA retire cerca de 77 milhões de barris do mercado mundial. Contudo, esse processo vai acontecer de forma gradual, uma vez que a reserva é preenchida com uma taxa de 225 mil barris por dia. Os EUA já gastaram cerca de US$ 25,7 bilhões nessa operação, incluindo os US$ 5 bilhões na construção de instalações para armazenamento dos barris e o restante na compra do estoque por um preço médio de US$ 29,70 por barril de petróleo.

 

Portanto, o colapso do acordo de oferta da OPEP + aliado aos efeitos ainda imprevisíveis da pandemia do Covid-19 têm provocado grandes perdas aos produtores norte-americanos de xisto. Se os preços continuarem a cair, o nível atual de produção de xisto dos EUA (atual maior produtor mundial) pode ficar seriamente comprometido. Em última análise, a sobrevivência do xisto depende de acordos globais com a Árabia Saudita e com a Rússia, nações que podem tirar proveito da queda de produção dos EUA para conquistar mais mercados. Os Estados Unidos, no entanto, não devem ficar parados. A imprensa norte-americana informou que o presidente Donald Trump deverá fazer um esforço diplomático para resolver a questão entre Rússia e Arábia Saudita. Se esses esforços funcionarem, os EUA serão um dos principais beneficiados.

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Nota editorial

Os textos publicados neste blog são de responsabilidade dos seus autores e não refletem necessariamente a linha programática e as opiniões do Ineep. A função do blog é divulgar os principais fatos e notícias do setor petróleo e, quando oportuno, analisar assuntos relevantes. São essas análises, elaboradas pelo Ineep, que apresentam a opinião do Instituto sobre os mais diferentes assuntos debatidos na conjuntura setorial.