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Novas fronteiras ficam em segundo plano

André Ramalho / Valor Econômico      terça-feira, 22 de outubro de 2019

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Foto: Valor Econômico.

 

Valor Econômico - Diante do posicionamento mais seletivo da Petrobras nos leilões mais recentes, as petroleiras estrangeiras avançaram sobre as reservas marítimas e conseguiram abocanhar dois terços de cada quilômetro quadrado da costa brasileira licitado desde a retomada das grandes rodadas da Agência Nacional do Petróleo (ANP), em 2017. A desconcentração, contudo, não de traduz, necessariamente, em investimentos para muitas das novas fronteiras marítimas - regiões que contam com poucas informações geológicas e, portanto, maiores riscos. O baixo interesse das empresas por essas áreas levanta o debate sobre quem assumirá o papel de desbravador dos mares brasileiros, protagonismo assumido historicamente pela estatal.

 

Levantamento do Valor, com base em dados da ANP, mostra que a Petrobras arrematou, seja como operadora, seja como sócia minoritária, cerca de 18 mil km2 do mar brasileiro desde 2017, o equivalente a 36% de toda a área da costa nacional leiloada no período. Para efeitos de comparação, esse percentual era de 60% na série histórica, até 2015.


Os números revelam que o aumento da participação das petroleiras estrangeiras no mapa exploratório brasileiro não garantiu um interesse maior por novas fronteiras. Bacias como Pelotas, Pernambuco-Paraíba, Jacuípe e Camamu-Almada não receberam uma proposta sequer nos últimos dois anos.

 
Dentre as regiões de maior risco exploratório, apenas oito ativos localizados em águas profundas das bacias de Potiguar e Ceará despertaram algum interesse - de empresas como a Shell, Wintershall Dea e a própria Petrobras. Pouco para um país continental como o Brasil, que tem apenas 5% de sua área sedimentar, em terra e mar, contratada. Para efeitos de comparação, na 11ª Rodada, de 2013, o último grande leilão bem-sucedido na oferta de novas fronteiras, 45 concessões marítimas com esse perfil foram negociadas.


O diretor-geral da ANP, Décio Oddone, destaca que a desconstrução do papel da Petrobras como protagonista da exploração de novas fronteiras é natural. “O Brasil é um país continental que gera oportunidades que estão acima da capacidade de investimentos de uma empresa só. O que vai acontecer agora, com a abertura do mercado, é uma diversidade maior de agentes, com diferentes focos, em diferentes regiões”, disse.


Oddone destaca que existem no mercado internacional, hoje, pequenas e médias petroleiras especializadas em explorar novas fronteiras e que elas podem assumir a função historicamente ocupada pela Petrobras. Nesse sentido, o diretor acredita que a oferta permanente - mecanismo pelo qual a ANP coloca à disposição do mercado, permanentemente, um pacote de ativos para compra sob demanda - pode estimular a entrada de empresas de desse tipo no Brasil.


“No modelo tradicional de leilões, as áreas em novas fronteiras eram colocadas à venda e, se não fossem arrematadas, eram esquecidas. Agora vão para a oferta permanente e ficam disponíveis para que as empresas dediquem o tempo que acharem necessário para estudarem a geologia e adquirir os ativos”, afirma.

 

Para a consultora da FGV Energia e ex-diretora-geral da ANP, Magda Chambriard, o interesse a “conta-gotas” das petroleiras por áreas de menor conhecimento geológico está  associado ao cenário de preços do petróleo. Ela lembra que o caso bem-sucedido da 11ª Rodada se deu num momento em que a cotação da commodity superava os US$ 100 o barril.


“Com a queda dos preços, as petroleiras reagiram e reduziram investimentos em exploração. Aos poucos, elas estão repondo seus portfólios, mas com muito mais cautela. Daí a importância do pré-sal para elas. É uma questão de interesse ao risco. 


Os riscos assumidos hoje são muito diferentes daqueles de 2013, 2014”, afirma. Magda não acredita que a exploração de novas fronteiras acontecerá de forma rápida. Mesmo tendo alguns ativos fora do eixo Campos-Santos em suas carteiras, as companhias tendem a priorizar a exploração nessas duas regiões. “Elas estão com carteiras de projetos cheias de ativos de baixo risco e tendem a acelerar a exploração do pré-sal. Não dá para retardar algo pelo qual elas pagaram bilhões.


Elas têm que ter um retorno rápido”, comenta. Para a consultora, faz mais sentido, neste momento, falar em novas fronteiras  tecnológicas do que em novas fronteiras geográficas. “Vamos esbarar em limites tecnológicos que terão de ser ultrapassados no pré-sal, conforme exploramos cada vez mais águas mais profundas”, disse.


A consequência de focar as atividades em Campos e Santos, segundo ela, será a concentração geográfica dos investimentos no eixo Rio-São Paulo. “Isso é um empecilho para descentralizar investimentos para outras regiões”, comenta. 

 

Embora a prioridade por Campos e Santos seja uma estratégia natural das empresas, existe o risco de que, num momento em que a indústria do petróleo já começa a se preparar para o pico da demanda e para um mundo em transição energética, as novas fronteiras do país sequer sejam exploradas, no futuro. “Temos o risco de não chegarmos a explorar todo o nosso potencial ”, afirmou Oddone. 


Para o economista Rodrigo Leão, diretor do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep), vinculado à Federação Única dos Petroleiros (FUP), a desconcentração geográfica dos investimentos exploratórios é importante na indústria petrolífera. Ele lembra que o declínio da Bacia de Campos foi compensado, nos últimos anos, pela descoberta do pré-sal. E afirma que a tendência é que o pré-sal, nas próximas décadas, também viva uma queda natural de sua produção.


“Uma petroleira do tamanho da Petrobras não pode parar de buscar novas fronteiras. É um processo longo de construção. Não pode esperar chegar num estágio temerário de queda das reservas. Mas não vejo no curto prazo uma mudança [na concentração dos investimentos em Campos e Santos]”, afirma Leão, que é pesquisador-visitante da Universidade Federal da Bahia (UFBA).


Segundo ele, é difícil dizer, hoje, quem vai assumir o papel de desbravador de novas fronteiras, no Brasil. Ele destaca que as petroleiras, sejam elas as gigantes do setor ou as petroleiras menores, historicamente, sempre trabalharam na esteira da Petrobras, atuando em áreas onde já há descobertas.


“ Total, Shell e Equinor estão há mais tempo no Brasil e conhecem mais a geologia brasileira. Podem despontar como novas desbravadoras. Mas não há nenhum sinal claro, nenhum interesse manifesto ainda de que isso vá se concretizar”, disse.


Petroleiras médias, por sua vez, têm orçamentos mais limitados e tendem a explorar novas fronteiras num ritmo mais lento, comenta o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-diretor da ANP, Hélder Queiroz.


“Antigamente havia um uso da Petrobras para exploração de novas fronteiras”, lembrou. Ele destaca, ainda, que problemas no licenciamento de poços em novas fronteiras contribuem para reduzir o interesse por essas regiões. E lembra o caso da francesa Total, que pagou cerca de R$ 250 milhões pela aquisição de cinco concessões na Bacia Foz do Amazonas em 2013, mas teve o seu pedido de licença para perfuração nas áreas negado pelo Ibama. Seis anos após a compra dos ativos, a multinacional terá que reiniciar o processo de licenciamento.


O resultado da 16ª Rodada de concessões, neste mês, traduz esse desinteresse. Em meio à crise ambiental provocada pelo vazamento de óleo no litoral do Nordeste e diante de ações na Justiça contra a oferta de áreas com eventual risco de impacto no parque de Abrolhos, os blocos do Nordeste não atraíram uma proposta sequer. 

 

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