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Queda recente e volatilidade no longo prazo: o Ineep aponta as tendências do preço do petróleo

Ineep      sábado, 22 de dezembro de 2018

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Queda recente e volatilidade no longo prazo: o Ineep aponta as tendências do preço do  petróleo

Foto: Bloomberg

 

Nos últimos meses os preços do petróleo têm despencado nos mercados internacionais. Desde outubro, quando o valor chegou a US$ 80, até o início de dezembro, a queda foi de 40%, com o barril do WTI custando em torno de US$ 50. As causas estariam no aumento da produção norte-americana, os cortes superficiais da OPEP e Rússia e a desaceleração da demanda mundial para o ano que vem. No entanto, mais grave do que essa redução de curto prazo está na tendência de volatilidade e incerteza sobre o futuro do preço. O Ineep detalha cada um desses aspectos


1. Excesso de oferta na produção dos EUA: Um dos principais fatores para a queda nos preços internacionais do petróleo está no aumento contínuo da produção petrolífera norte-americana. Em relatório recente, a Agência Internacional de Energia (AIE) afirmou que a produção total de petróleo bruto nos EUA em 2018 foi de 10,9 milhões barris por dia (bpd), número acima dos 9,4 milhões bpd em 2017, tornando o país no maior produtor de petróleo do mundo. Além disso, o mesmo relatório aponta que a expectativa é que a produção nos EUA continuará a todo vapor no ano que vem, estimada em 12,1 milhões bpd na produção bruta em 2019. O aumento na produção norte-americana tem sido tem sido a principal causa de excesso na oferta internacional da commodity, causando assim a depreciação recente nos preços do petróleo.


2. Reação superficial da OPEP e Rússia: Como resposta ao aumento do aumento expressivo da produção norte-americana, Rússia e OPEP tem realizado cortes significativos em sua produção. A maior delas foi anunciada no início de dezembro, quando os países anunciaram um corte de 1,2 milhão bpd. Mesmo assim, a medida não pareceu afetar significativamente o mercado, uma vez que a diminuição anunciada possivelmente será acompanhada pelo aumento da produção norte-americana de aproximadamente 1 milhão bpd, anulando assim a estratégia capitaneada sobretudo por Arábia Saudita e Rússia.


3. Maiores incertezas sobre a demanda de petróleo: As previsões sobre demanda de petróleo, no longo prazo, são bastante incertas. Todas as organizações internacionais mostram que o petróleo perderá importância relativa na matriz energética, no entanto isso significa que haverá uma redução no uso do petroleo. De acordo com o último relatório da OPEP, a previsão de demanda global de petróleo em 2019 será de 31,8 milhões bpd, uma queda de 900 mil bpd em relação à projeção de 2018. No entanto, a BP mostra em relatório que a demanda de petróleo ainda pode crescer até a década de 2030. Essa incerteza afeta a própria logica de produção e gera maiores dúvidas acerca do preço do petroleo no longo prazo.


4. Os ciclos financeiros e a lógica de investimentos das petrolíferas: a postura das petrolíferas mais conservadora em relação a projetos mais caros de exploração de petróleo pode criar um cenário de maior volatilidade nos preços no longo prazo, tendo em vista a incerteza sobre a própria oferta de petróleo. O diretor do Ineep, William Nozaki, detalha essa postura: “Os planos de investimento das grandes empresas petrolíferas tem sinalizado para a paulatina redução dos aportes em upstream (fase de exploração e produção) e para a manutenção dos recursos em downstream (fase de refino e distribuição); há ainda a tendência de que as National Oil Companies (NOCs) centralizem os investimentos em novas descobertas enquanto as International Oil Companies (IOCs) concentrem os investimentos em outras etapas e nos processos de reestruturação patrimonial. Isso tem se dado dessa forma, pois, de um lado, a alta volatilidade dos "ciclos petrofinanceiros" no curto-prazo tem inibido novos investimentos em grandes projetos com alto risco de exploração e produção (E&P) e tem diminuído aportes em bens de capital pelas grandes petrolíferas, que tem passado a apostar em renováveis e startups; de outro lado, a alta temperatura no ambiente geopolítico, que deve prosseguir no médio prazo, tem alertado os principais Estados para a importância de garantirem sua segurança e defesa energética por meio da proteção ao acesso de reservas de óleo e gás”.


5. Mudança geopolítica: O crescimento da produção americana, o potencial exploratório da América Latina – principalmente Brasil e México – tem modificado a geopolítica do petróleo, cujo centro dinâmico agora não está apenas no Oriente Médio, mas também no continente americano. Ou seja, no médio prazo, o papel da atual Opep na determinação do preço pode diminuir e novas regiões podem aumentar sua influência nesse processo. Com efeito, há uma maior incerteza de como se dará a definição do preço do barril no médio dada essa mudança.

 

Como se observa, há um conjunto de transformações de curto e médio prazo que podem tornar o preço não apenas mais baixo no curto prazo, como estruturalmente mais volátil no longo prazo. Isso exigirá das empresas uma seleção mais rigorosa nos projetos de investimento, bem como uma concorrência mais acirrada em regiões produtoras com melhor custo-benefício, como é o caso do pré-sal. Se, por um lado, o Brasil tende a ser um player mais relevante no mercado internacional de petróleo, por outro, a disputa em torno do pré-sal será cada vez mais acirrada, o que pode diminuir esse poder do Brasil a depender de como essas reservas serão geridas no futuro.

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Nota editorial

Os textos publicados neste blog são de responsabilidade dos seus autores e não refletem necessariamente a linha programática e as opiniões do Ineep. A função do blog é divulgar os principais fatos e notícias do setor petróleo e, quando oportuno, analisar assuntos relevantes. São essas análises, elaboradas pelo Ineep, que apresentam a opinião do Instituto sobre os mais diferentes assuntos debatidos na conjuntura setorial.