Blog do Ineep

início       análises      site institucional

Vírus e guerra de preços do petróleo fazem ruir o setor de xisto americano

Derek Brown / Financial Times      quinta-feira, 26 de março de 2020

Compartilhe esta página com seus amigos

Foto: Bloomberg.

 

Valor - A revolução do xisto, que tornou os EUA o maior produtor de petróleo e gás do mundo e trouxe a perspectiva de autossuficiência energética para o país, perdeu o fôlego, depois de diversas empresas do setor terem anunciado cortes de investimentos e de produção, em reação à guerra de preços no mercado mundial e ao colapso da demanda por petróleo decorrente da pandemia do coronavírus.


A produção de petróleo dos EUA, de 13 milhões de barris/dia, o maior patamar da história, começará a cair de forma acentuada no segundo semestre e poderá recuar em 2,5 milhões de barris/dia até o fim de 2021, calculam analistas. Novas quedas de preço do petróleo, mesmo que pequenas, poderiam levar a uma redução ainda maior, de quase 4 milhões de barris na produção diária americana, revertendo totalmente os aumentos vistos nos últimos três anos. 


“O crescimento do xisto ajudou a tirar os EUA da Grande Recessão [de 2008-09], mas [o setor] pode se tornar vítima da recessão causada pela covid-19”, disse Jamie Webster, diretor sênior do Center for Energy Impact, do Boston Consulting Group, em Washington.

 

Os cortes de investimentos em bens de capital têm sido grandes e rápidos desde o fim do pacto entre Rússia e Arábia Saudita, em 6 de março, que desencadeou uma guerra de preços que cortou pela metade a cotação do petróleo do tipo WTI, referência nos EUA, para cerca de US$ 23 por barril. 


Entre as grandes produtoras de óleo de xisto que anunciaram cortes bilionários nos investimento estão Occidental, Apache, Cimarex, Diamondback Energy, Continental Resources, ConocoPhillips, Concho Resources, Pioneer Natural Resources e Parsley Energy.


A gigante Chevron anunciou ontem um corte de US$ 2 bilhões nos investimentos em bens de capital na bacia Permiana de xisto neste ano. O número de poços em funcionamento na região cairá em breve em mais da metade e sua produção no fim do ano será 20% menor do que a planejada. 


No total, os investimentos no setor de xisto cairão dos US$ 107 bilhões de 2019 para US$ 64 bilhões neste ano, segundo a consultoria Rystad Energy, mas a queda pode ser bem maior se o preço do petróleo não subir de modo relevante.


O colapso na atividade vai causar impacto econômico generalizado nas regiões produtoras de petróleo nos EUA, onde uma ampla rede de prestadores de serviços - de hotéis e restaurantes a equipes de fraturamento hidráulico - se consolidou nos últimos três anos com a alta atividade petrolífera.


Também acabará com a onda de expansão que reduziu a dependência americana em relação à produção externa e permitiu uma alta constante nas exportações.


A Rystad Energy prevê uma queda na produção de 1 milhão de barris/dia neste ano e de mais 1,6 milhão em 2021, caso o WTI fique em US$ 30 por barril. A US$ 20 por barril, um preço inimaginável há poucas semanas, mas agora previsto pelo Goldman Sachs para este segundo trimestre, a produção cairia em 3,6 milhões de barris/dia.


Outras projeções apontam para quedas similares. Até o terceiro trimestre de 2021, a produção diária cairá 1,4 milhão de barris, previu nesta semana o Goldman Sachs. A consultoria RS Energy Group prevê queda de 700 mil barris/dia neste ano e de 1,1 milhão em 2021.

 

“Com o WTI a US$ 30 ou o Henry a US$ 2 nada funciona em escala nos EUA”, disse Dane Gregoris, diretor da RSEG, referindo-se aos menores preços históricos sendo pagos atualmente pelo Henry Hub, referencial do gás natural. A RS Energy estima que o preço de equilíbrio entre receitas e despesas da produção na bacia Permiana, a região que mais produz petróleo de xisto, é de US$ 43 por barril.


Na primeira temporada de balanços deste ano, os produtores de xisto tentaram tranquilizar os acionistas, garantindo que estavam se adaptando. Disseram que cortariam planos de crescimento extravagantes, para dar maior retorno aos investidores, e que o foco seria aprender a viver com uma cotação de US$ 55 por barril. Depois, os modelos econômicos dos produtores e do mercado ruíram. 


O número de sondas de perfuração nos EUA, um bom indicador da atividade futura, caiu em 19, para 664, na semana passada, segundo a Baker Hughes, uma divisão da General Electric. A Rystad Energy projeta uma queda de 60% no número de sondas no fim deste ano.


Os produtores americanos não se deparam apenas com o colapso na demanda mundial decorrente da pandemia do coronavírus, mas com uma onda de aumento na produção saudita e russa.


A Rússia viu o declínio na demanda e a deterioração do mercado como uma oportunidade para pressionar os produtores nos EUA.


As ações no setor de petróleo e gás dos EUA perderam, em média, quase metade do valor desde pouco antes do fim do acordo entre russos e sauditas. As agências de classificação de risco têm reavaliado a capacidade de crédito dos produtores americanos, e muitos emissores de bônus passaram a ter rating “junk”, que indica papéis de alto risco. Isso dificulta o refinanciamento para um setor que, em razão do modelo, exige constantes injeções de dinheiro para manter a produção constante e que já vinha perdendo lugar entre investidores.


As esperanças do setor - e daqueles ainda apostando que a revolução do xisto traga a independência energética para os EUA - são agora a rápida recuperação dos preços do petróleo. Ontem o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, conversou ontem com o príncipe regente da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, e pediu para que o país atue para estabilizar os preços do petróleo. Isso sinaliza um aumento da pressão dos EUA sobre a Arábia Saudita.


“O xisto prospera a US$ 100 por barril, sobrevive a US$ 50, mas morre a US$ 25”, disse Webster.

Comentários


O que você procura?


Últimas Postagens

Leilões em xeque

segunda-feira, 30 de março de 2020

Petrobras hibernará plataformas em Campos

segunda-feira, 30 de março de 2020

IHS Markit: Brasil em situação vulnerável

segunda-feira, 30 de março de 2020

Gigante do petróleo chinês está cortando gastos

segunda-feira, 30 de março de 2020

Vazão de gás no pré-sal crescerá 45% até 2023

sexta-feira, 27 de março de 2020

Eni e Repsol cortam capex

sexta-feira, 27 de março de 2020



Nota editorial

Os textos publicados neste blog são de responsabilidade dos seus autores e não refletem necessariamente a linha programática e as opiniões do Ineep. A função do blog é divulgar os principais fatos e notícias do setor petróleo e, quando oportuno, analisar assuntos relevantes. São essas análises, elaboradas pelo Ineep, que apresentam a opinião do Instituto sobre os mais diferentes assuntos debatidos na conjuntura setorial.